19 de maio de 2015

Pedalando no inverno

Com a chegada do outono/inverno, o clima passa a ser bem mais hostil aos ciclistas urbanos. As baixíssimas temperaturas observadas nas manhãs e finais de tarde contrastam com o sol e temperaturas mais elevadas durante o dia. A escolha do vestuário adequado para a pedalada torna-se importantíssima, de modo a proporcionar conforto e proteção ao ciclista.

Pedalar é uma atividade que demanda esforço físico; então é inevitável que o corpo eleve sua temperatura. Isso é bom de um lado e ruim de outro: ao elevar a temperatura do corpo o ciclista fica menos sujeito ao frio, porém, se não houver um controle da temperatura, o ciclista passa a sofrer do desconforto do excesso de calor e suor. Por isso mesmo, roupas de frio comuns não são totalmente adequadas e indicadas para o pedal.

O vestuário ideal é aquele que permite a perda de excesso de calor gerado pela pedalada, sem, contudo, expor o ciclista ao frio. Essa característica está diretamente ligada à capacidade do material permitir a evaporação do suor, que controla a temperatura corporal. Materiais sintéticos são mais eficientes nesse ponto, portanto roupas de algodão devem ser evitadas. O algodão demora mais para secar quando molhado, acumulando suor. Após cessar a atividade física (a pedalada), o suor contido no tecido irá esfriar, gerando desconforto ao ciclista, podendo até mesmo provocar gripes e resfriados.

Mesmo nos dias mais frios não é necessária uma montanha de roupas para se proteger das baixas temperaturas a que estamos expostos durante a pedalada. Pelo contrário. Peças leves e confortáveis podem trazer a proteção e o conforto desejado.

O ciclismo esportivo trouxe diversas contribuições para os ciclistas urbanos no que tange o vestuário, e algumas delas impressionam pela simplicidade e praticidade, inclusive podendo ser utilizadas conjuntamente com roupas comuns.

É o caso dos manguitos e pernitos. Essas peças de nomes estranhos nada mais são que extensões de camisas e bermudas de ciclismo. Mas podem ser utilizados por baixo da roupa comum, auxiliando na retenção do calor, ao mesmo tempo que permite a evaporação do suor. Outra enorme vantagem é a facilidade de colocação e retirada, caso o tempo mude.

Ambos são fabricados em lycra, ficando justos nas pernas e braços. O custo varia de acordo com o material e marca, mas peças de qualidade comprovada custam em torno de R$ 20 (manguitos) e R$ 30 (pernitos), o par.

Costumo utilizar os manguitos por baixo (ou sobre) as mangas de jaquetas, assim evito ter os pulsos expostos ao vento.

Outra peça interessante e muito prática é a chamada “segunda pele”. São camisas (de manga curta ou longa) e calças justas, de material muito agradável ao toque, e que permitem um conforto muito grande, pois absorvem o suor da pele, dissipando a umidade mais rapidamente. São ótimas para serem utilizadas por baixo de conjuntos “trainning” ou qualquer outra roupa.
Se você pedala grandes distâncias diariamente, o uso de calças de ciclismo é recomendável, principalmente pela existência do forro, que proporciona conforto e evita assaduras provocadas pelo selim.

A calça pode ser utilizada sem complemento, enquanto a segunda pele não deve ser utilizada de forma solitária. Porém nada impede que você utilize uma bermuda ou calça comum sobre a calça de ciclismo, caso não se sinta confortável com a aparência que esta proporciona.

O preço de uma calça de ciclismo começa em torno de R$ 60, de marca nacional de boa qualidade.

Para a parte superior do corpo, existem jaquetas especialmente desenhadas para a prática do ciclismo, contendo inclusive os característicos bolsos traseiros (algumas vezes com zíper).

A vantagem destas jaquetas é que foram desenhadas pensando na proteção contra o frio durante a pedalada, sendo muito eficientes na absorção do suor da pele e dissipação da umidade proveniente deste. O seu desenho e acabamento permitem que sejam utilizadas sem qualquer peça por baixo, facilitando esta troca de calor e umidade com o ambiente externo. Porém, em caso de muito frio, é recomendável vestir uma camisa (de preferência de material sintético) ou até mesmo uma segunda pele.

Existem diversos modelos de jaquetas de ciclismo, porém marcas nacionais de boa qualidade possuem modelos com preços que variam de R$ 90 a R$ 150.

Até mesmo os pés não estão abandonados à própria sorte quando o assunto é o frio. As sapatilhas específicas para ciclismo possuem um sistema de ventilação avançado, o que as torna (ou os pés dentro delas) muito suscetíveis ao frio.

Para isso, existem peças específicas para cobrir as sapatilhas ou tênis durante a pedalada, as chamadas botinhas. Elas são fabricadas em neopreme ou lycra, podendo ou não possuir zíper para facilitar a colocação. Normalmente apresentam aplique de material refletivo, o que ajuda na segurança para pedaladas noturnas.

As botinhas são desenhadas para utilização em sapatilhas, portanto possuem furos específicos para o taco (que promove a fixação no pedal) e no calcanhar, onde as sapatilhas possuem um apoio de borracha para evitar tombos. Porém as mesmas podem ser utilizadas com tênis comuns, observando-se apenas que haverá um desgaste da parte inferior, que entrará em contato com o pedal e o calçamento durante a caminhada.

As botinhas são bastante práticas também na proteção contra a chuva. Elas em si não possuem a capacidade de barrar a entrada da água, porém podem cobrir sacos plásticos, sacolas ou até mesmo filme plástico (utilizado para embalar alimentos) que viriam a proteger os tênis/sapatilhas da água.

Nem é preciso lembrar da necessidade de boas luvas, por motivos óbvios. O uso de luvas impede a exposição direta das articulações ao frio, o que pode provocar problemas como artrite. E também protege as mãos em caso de tombo, evitando ferimentos mais graves.
Existem luvas para todos os gostos e bolsos, porém não é preciso gastar fortunas para se obter um bom produto. Linhas nacionais de produtos para ciclismo oferecem luvas de excelente qualidade por preços módicos. Modelos de dedo fechado podem ser encontrados por R$ 35 ou pouco mais.

Ao adquirir uma luva, procure optar por modelos que possuam acolchoamento na palma da mão. Esse forro ajuda a absorver as vibrações e pancadas provenientes do guidão, evitando dores e outros problemas.

Não é muito aconselhável a utilização de luvas de volume exagerado (tipo montanhismo) ou sem a existência de antiderrapante nos dedos. Ambos os casos podem provocar dificuldade na operação de manetes de freio e câmbio, dificultando a pedalada ou, na pior das hipóteses, provocando incidentes.

A cabeça também merece atenção, em especial as orelhas (e ouvidos) e a nuca, que quando descoberta potencializa a sensação de frio.

A cabeça é responsável por uma parcela significativa de nossa transpiração, pela existência de grande quantidade de vasos sanguíneos no couro cabeludo, e consequentemente circulação sanguínea.

Portanto não é recomendável cobrir totalmente a cabeça na prática de atividades físicas, pelo desconforto proveniente da elevação da temperatura da região e também pelo suor gerado. Para evitar estes problemas existem duas alternativas aos ciclistas: os gorros ajustáveis e as bandanas.

Os gorros ajustáveis possuem um elástico ou cordão na parte superior, permitindo a abertura total ou parcial do mesmo.

Com esta opção, é possível ventilar a parte superior da cabeça sem, no entanto, expor a mesma ao vento frio. Também é possível utilizar sob o capacete de ciclismo, desde que o mesmo possua regulagem para se ajustar ao volume adicional do gorro.

Outro uso interessante para este tipo de gorro é o de pescoceira. Abrindo-se o elástico totalmente é possível utilizar o gorro de ponta cabeça, cobrindo o pescoço e nuca. É prático e confortável. Um gorro ajustável da marca nacional Curtlo custa em torno de R$ 25.

As bandanas (ou testeiras) são peças que recobrem a testa, orelhas e parte da nuca do ciclista, deixando o topo da cabeça livre para o uso do capacete. É o ideal para a prática de ciclismo, pois evita o superaquecimento da cabeça e protege as partes críticas que normalmente ficam expostas.Testeiras de fabricação nacional como Mauro Ribeiro ou Adenosina custam de R$ 20 a 25.

E finalmente, em caso de chuva, nada mais simples que uma capa de chuva, não é? Errado! Capas de chuva comuns tornam-se verdadeiras saunas quando utilizadas por ciclistas. Não é incomum o ciclista ficar mais molhado por causa do suor do que pela chuva, caso não estivesse utilizando a capa.

Para isso existem capas desenhadas exclusivamente para ciclistas, com duas características interessantes: aberturas sob os braços e nas costas, para expelir o calor e suor; e o maior comprimento da parte traseira, evitando que o ciclista tenha suas calças encharcadas pela água impulsionada pela roda traseira.

As capas também são muito compactas, podendo ser dobradas de forma que caibam no bolso traseiro de uma camisa de ciclismo. Boas capas de chuva custam entre R$ 65 e 85.

A combinação das peças de vestuário apresentadas pode proporcionar a proteção necessária para qualquer tempo, seja uma manhã gelada ou um dia de temperaturas amenas e chuva leve. Por exemplo: em dias excepcionalmente frios, a calça pode ser complementada pelos pernitos ou pela segunda pele, assim como a jaqueta pelos manguitos. A capa de chuva por cima da jaqueta também é uma opção. Em dias amenos, os manguitos e pernitos em conjunto da bermuda e uma camiseta já são suficientes.

O custo relativamente (e aparentemente) elevado das peças especialmente desenhadas para o ciclismo pode desencorajar a compra, porém a tecnologia utilizada e o fato de serem pensadas para a pedalada compensam o investimento. Por experiência aprendi que a utilização de tais peças poupa as roupas “normais” no dia-a-dia, além de trazer maior conforto, praticidade e proteção.

Esse produtos podem ser encontrados em lojas especializadas de ciclismo ou lojas de montanhismo e aventura.

Um abraço e boas pedaladas! Com qualquer tempo!


Esse artigo foi escrito por Paulo Roberto Rodachinski, que mora em Curitiba e usa a bicicleta diariamente como meio de transporte.

O artigo foi publicado em partes 1, 2 e 3, no site Transporte Humano.

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